Estudo sobre a técnica e a saúde

autor: Ricardo Rodrigues Teixeira

tese de doutorado apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Área de Medicina Preventiva.
São Paulo, 2003.

orientadora: Lilia Blima Schraiber

ficha catalográfica (preparada pela Biblioteca da FMUSP):
 

ficha catalográfica

 

resumo:

Este trabalho é composto de duas partes. Na primeira, principalmente filosófica, discutimos o que é pensar, traçando uma imagem do pensamento, uma imagem do que significa nos servirmos do pensamento e nos orientarmos no pensamento. Essa imagem é, simultaneamente, o plano de imanência dos dois principais conceitos elaborados, correspondentes aos dois pólos deste estudo: Grande Saúde e agenciamentos tecnosemióticos. Na segunda parte, apresentamos um conjunto de ensaios que delineiam, desta vez, uma imagem da técnica. Argumentamos que esta imagem é mais completa do que aquelas que dominam as discussões sobre saúde e técnica, oferecendo um quadro mais dinâmico e eficiente para lidar com as grandes questões desta relação. Além das técnicas das coisas (aplicadas aos corpos e a outras dimensões do mundo físico e orgânico), reconhecemos as técnicas dos signos (aplicadas às mentes, mais especificamente à linguagem e à inteligência) e as técnicas das relações (instituições políticas e sociais). Quando levamos em conta estes últimos dois tipos de técnicas, iluminamos especialmente a vida dos serviços de saúde e as dimensões microfísicas das práticas de saúde, nível em que as técnicas das coisas (na maior parte, biotecnologias) são efetivamente distribuídas e tornadas disponíveis para os diferentes usuários.

 

summary:

This work has two parts. In the first one, mainly philosophical, we discuss what is to think, tracing an image of the thought, an image of what means to serve ourselves of the thought and to orientate ourselves in the thought. This image is, simultaneously, the plan of immanence for the two main concepts we have elaborated, corresponding to the two poles of this study: Great Health and techno-semiotic agency. In the second part, we present an ensemble of essays that pictures, this time, an image of the technique. We argue that this image is more complete than those that dominate the discussions about health and techniques, offering a more dynamical and efficient framework to deal with major questions of this relationship. Besides techniques of things (applied to the bodies and to others dimensions of the organic and physical world), we also recognize techniques of signs (applied to the minds, more specifically to language and intelligence) and techniques of relations (political and social institutions). When we take into account these last two kinds of techniques, we specially illuminate the health-service’s life and the microphysical dimensions of health practices, level where the techniques of things (mostly biotechnologies) are effectively distributed and made available for the various users.

 

índice:

 

Introdução (1)
 

Parte 1: Anarcôntica – a imagem do pensamento e a matéria do ser (13)

intróito (14) – personagem (17) – filosofia (20) – efeitos de outrem (24) – Outrem é a expressão de um possível (25) – Outrem e a estrutura da percepção (27) – Outrem e o desejo (29) – o plano de imanência do desejo é o Corpo sem Órgãos (32) – Espinosa e a dupla-articulação (35) – afectologia espinosana (38) – fisiologia do Corpo sem Órgãos (40) – semiótica espinosana (45) – o conceito e a fabrica intima (51) – ética do conceito (61) – a Grande Saúde é a Ética (68) – medicina espinosana (74) – a Grande Saúde e a saúde (90) – autômato espinosano (95) – dupla-captura (98) – a imagem do pensamento (100) – a opinião e a ordem (102) – o pensamento e o caos (104) – sensações, conceitos e funções (106) – “rendimentos decrescentes” (109) – a persistência do caos (110) – existir e insistir (111) – anarcôntica (111) imagem do pensamento (114)       matéria do ser (115) – dupla-articulação de conteúdo e expressão (115) –  interior, exterior: limite, membrana e meio associado (116) – processo de individuação (118) – tipos de forma e graus de desenvolvimento (119) – estratos físico, orgânico e de significação (121) – conteúdo e expressão: a mão e rosto (122) – o gesto e a palavra (124) – a técnica e a linguagem (126) – o conteúdo tecnológico e a expressão semiótica (127) – agenciamentos tecnosemióticos (128) – linhas de fuga (128) – imagem do pensamento : Grande Saúde :: matéria do ser : agenciamentos tecnosemióticos (133) – linhas de fuga (134)

 
Parte 2: Pensando a técnica e a saúde (135)
 
Tecnologia e hermenêutica (136)

ser e representação (136) – técnica e representação (140) paidéia (144) – “talento estético” (146) – experiência política (148) – sociedade da palavra (151) techné do logos (153) polis, geometria, physis e medicina (156) paidéia e saúde (158) techné e pensamento filosófico (161) – mito de Prometeu (166) – antiguidade e medievo (167) – renascimento das artes mecânicas (169) – tecnologia como hermenêutica (173) – técnicas do corpo e hermenêutica (177)

 

Tecnologia e comunicação (180)

comunicação e livre comércio (181) – somatismo tecnológico (184) – relação centro-periferia (185) – cultura de elite e cultura popular (188) – o surgimento das massas (190) – as ciências e as tecnologias das massas (191) – comunicação e epidemias: influência (influenza) e contágio (196) – pequenos objetos da vida cotidiana (203) – gnosticismo tecnológico (209) mass communication research (211) – escola de Frankfurt, estruturalismo e estudos culturais (214) – crítica da modernidade deslocada (217) – mestiçagens e hibridizações: modernidades alternativas (220)

 

Agenciamentos tecnosemióticos e produção de subjetividade (225)

técnica e subjetivação (225) – agenciamentos tecnosemióticos e produção de subjetividade (241)

 

Redes sociotécnicas de saúde e poética social (264)

integrações e apartações (264) – crise de alteridade (269) – hilemorfismos (271) – acolhimento e rede de conversações (275) – técnicas de conversa e democracia (281)

 

Bibliografia (285)

Lista de figuras (300)

 

 

 

 

 

 

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior.

 

Necessidade de vacina antropofágica.

 

Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano.

E as inquisições exteriores.

 

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas.

Cadaverizadas.

O stop do pensamento que é dinâmico.

 

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão.

Só a maquinaria.

E os transfusores de sangue.

 

Contra as sublimações antagônicas.

Trazidas nas caravelas.

 

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus.

 

Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago.

 

 

 

 

 

 

(ídmen pséuden pollá légein etýmoisin homoîa

ídmen d’eût ethélomen alethéa gerýsasthai)

 

somos mentiras muitas dizer símeis a realidades:

sabemos, quando anuímos, ilatências vozear

 

Palavras dirigidas pelas musas a Hesíodo

(Teogonia, trad. de JAA Torrano)

 

 

 

 

 

 

fendas de fontana

 

Lúcio Fontana

Conceito espacial

1962

 

 

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