DIALOGANDO COM A INTERNET

 

Ricardo Rodrigues Teixeira

Doutor em Medicina Preventiva, médico sanitarista, docente e pesquisador

do Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa da Faculdade de Medicina da USP.

 

[transcrição de fala em seminário, publicada em O conhecimento de intersecção: uma nova proposta para as relações entre a academia e a sociedade. Fernando Lefèvre, Ana Maria Cavalcanti Lefèvre e Regina Maria Ignarra (organizadores). FSP-USP/IPDSC. São Paulo, 2007; pp.101-7]

 

Há uma forte tendência em considerar a Internet como um grande estoque de informações. Esse é um papel que ela efetivamente tem, mas não considero que é o mais importante e nem uma especificidade da Internet, porque, informação nós podemos obter através de várias fontes e estamos mesmo hipersaturados de informações que nos chegam das mais diferentes formas. Se fizéssemos uma cartografia da maneira como as informações nos chegam, descobriríamos uma rede intensamente densa e complexa, como a Inesita nos mostrou.

Postulo que a grande virtude da Internet é nos propiciar novos modos de se fazer comunidades. No entanto, a Wilma acabou de afirmar que apenas 3% da população brasileira tem acesso à Internet. Nesse caso, poderíamos nos pergun­tar: que relevância tem essa ferramenta usada por 3°/o da população brasileira na formação de outros tipos de comunidade? Como a Wilma, também serei relativa­mente insubmisso ao tema proposto. Não vou falar sobre formação de comuni­dades na Internet, mas sobre o que é que a Internet nos ensina sobre a formação de comunidades e que nos permite meditar um pouco sobre o modo propriamente humano de fazer comunidade.

Retomando o que a Wilma acaba de nos trazer sobre os critérios para defi­nir uma comunidade tradicional, temos, então: o território, a permanência, o pertencimento e o projeto comum.

Então, como primeiro ponto, fica evidente que na idéia de ciberespaço que ela nos trouxe (definido como um não-lugar), a definição tradicional de comunidade só se preserva metaforicamente, isto é, se nós aceitarmos que esse não-lugar que é o ciberespaço seja um "lugar".

Em relação à permanência, considero que a Internet também vem nos trazendo a possibilidade de vislumbrar outros modos de formação de comu­nidades e que estão dados justamente na impermanência ou na temporariedade. Contrariamente às acepções mais tradicionais, há possibilidades de se constituírem comunidades de forma súbita e/ou temporária ou, como diria o misterioso guru do "anarquismo ontológico" Hakim Bey (2003), a constituição de "Zonas Autônomas Temporárias", expressão muitas vezes usada pelos teóricos do ciberespaço para se referir a certa dinâmica de formação (e dissolução) de comunidades na Internet.

Repito: quero que vocês me escutem não como alguém que está falando da Internet, mas sobre uma outra possibilidade - melhor percebida graças à expe­riência que a gente pode ter na Internet - de olhar os movimentos sociais e a formação de comunidades e perceber outras dinâmicas e arranjos que, talvez, até já estivessem dados muito antes dessa tecnologia.

Em relação ao pertencimento e à questão do projeto comum, gostaria de tratar dessas duas questões conjuntamente e é sobre elas que vou colocar o foco principal da minha intervenção.

A idéia de pertencimento nos remete à idéia de identidade, como a Wilma bem chamou a atenção. Contudo, na Internet, podemos identificar fenômenos de constituição de grupos que justamente são capazes de escapar ao marco identitário clássico, entendido como um "eu igual a mim mesmo através do tempo". A noção de identidade contém, como núcleo, essa idéia de um "idêntico a si mesmo". E a experiência da Internet nos traz uma concepção mais produtiva da identidade, que nos conduz mais propriamente à idéia de uma produção incessante de (novas formas de) subjetividade. E é na experiência da interação que eu produzo novas formas de subjetividade.

Acho importante ressalvar que este desvio proposto, que vai da noção de identidade - em seu aspecto (auto)conservador - à noção de produção de subje­tividade - em seu sentido (auto)revolucionário -, não pretende sugerir que as questões identitárias estejam esgotadas ou sejam irrelevantes. Pelo contrário, os processos de constituição de identidades individuais e coletivas desempenham um papel primordial nos processos contemporâneos de produção de subjetivi­dade. Entendê-los significa compreender um vetor importante, quase sempre de captura e controle, dos processos de produção de subjetividade. Daí, sua enorme importância na constituição, por exemplo, de comunidades na Internet. Como o que quero destacar aqui não é propriamente a constituição de comunidades na Internet, mas o que a Internet nos ensina sobre a constituição de comunidades, o que se sobressai não é o problema da identidade, e sim, o problema da produção de subjetividade, muito importante para a compreensão das comunidades "de interação rápida com outras comunidades".

No que diz respeito ao projeto comum, aceito essa idéia desde que a gente também entenda que esse projeto não seja algo dado a priori. Outro grande ensi­namento sobre a constituição de comunidades que a Internet nos franqueia é de que o comum é, também, o que deve ser produzido. Chamo a atenção para o alcan­ce político do que estou dizendo. Não vou poder desenvolver em profundidade essa dimensão no momento, mas quero, de modo breve e provocativo, afirmar que acho que nosso grande desafio político, hoje, é justamente produzir o comum...

Creio que é evidente o quanto essa idéia de um comum dado a priori faz parte do esquema identitário, do mesmo modo que, simetricamente, a idéia de produzir o comum corresponde à produção de um plano coletivo de produção de subjetividades singulares.

Fiz aqui uma série de formulações, lancei uma série de afirmações muito gerais e pretendo explicar algumas dessas idéias através de uma rápida metáfora.

Mas antes, para esclarecer um pouco mais o que estou falando, retomo ainda uma última questão, que nos foi trazida neste Seminário pela Elma: o problema da autonomia. A Elma nos lançou uma questão capital. Como se capacita para a autonomia? O que nos capacita para a autonomia? Nesse ponto, tenho que me afastar um pouco do marco da bioética, que está fortemente fundado no plano da consciência, como ficou claro na exposição da Elma. Nesse marco conceitual, tudo está muito ligado à idéia de poder entender uma informação e tomar uma decisão livremente, que são todas questões que se colocam no plano da consci­ência. Colocarei o problema num plano que pode ser dito "inconsciente", mas que eu vou preferir chamar de plano afetivo. Postulo que o que capacita a pessoa, primordialmente, para o exercício da autonomia, é o aumento da potência, enten­dendo a potência como a potência de existir ou a potência de agir e de pensar, aquilo que alguns filósofos - notadamente Espinosa e, mais contemporaneamente, Deleuze - fizeram corresponder, de forma bastante simples, aos afetos de alegria. A alegria, nessa perspectiva, pode ser definida como o afeto em que se experimenta o aumento da potência e a tristeza nada mais é do que a diminuição da força de existir e da potência de agir e de pensar.

Vou então contar uma historinha muito simples e bastante universal. Tentarei explicar todas essas idéias lançadas intempestivamente, a partir de uma experiên­cia vivida por todos nós, que é a experiência da paquera em todos os seus desdo­bramentos, que vão do enamoramento à continuidade na duração do encontro amoroso (este exemplo é explorado mais amplamente em Teixeira, 2005). Através dela, espero conseguir tratar do problema da produção do comum e, simultane­amente, da produção de singularidades.

Imaginemos um encontro amoroso, o encontro de um corpo com outro corpo e o que acontece quando, ao encontrar um outro corpo a pessoa é tomada pela súbita convicção de que aquele corpo lhe convém, aquilo que se costuma chamar de paixão fulminante, de amor à primeira vista. Creio que todos sabem que essa é uma situação que se vivência afetivamente como uma experiência de aumento da potência ou, ainda em outros termos, de aumento do desejo e do apetite de vida. Do ponto de vista cognitivo, isso corresponde a um tipo de conhecimento que se passa a ter do outro, ou seja: nesse tipo de conhecimento do outro, há a convicção, a surda e absoluta convicção de que aquele outro corpo lhe convém, porque sente isso como um aumento de potência, como um afeto de alegria. Como todos sabem, isso é muito bom, isso é muito importante, mas do ponto de vista do conhecimento (e em termos espinosanos) é rigorosamente um conhecimento inadequado, é um conhecimento que só se pode saber se é verdadeiro a posteriori. A gente pode muitas vezes se enganar a esse respeito, não é mesmo? Mas ele é muito importante, não há como não passar por isso em encontros que acontecem na vida... Encontro é, sem dúvida, a categoria central desta rápida intervenção.

Como desdobramento dessa paixão fulminante, com alguma sorte, aquele encontro primeiro pode se prolongar numa saída, uma conversa a dois e ai vem a questão: a conversa. Entramos agora na natureza propriamente comunicacional da questão. No que consiste essa conversa? Pedindo licença para uma pequena brin­cadeira, digo que estudei "cientificamente" a questão e cheguei à conclusão de que essa conversa possui características impressionantemente regulares e universais, a despeito da infinidade de estilos possíveis de paquera: os enamorados tendem, em seus primeiros encontros, a explorar o que têm em comum ou o que tenho chamado de zona de comunidade:

- Você gosta de comida japonesa? Puxa, eu também adoro!

- Não me diga que você gosta dos filmes do Hal Hartley? Incrível! Eu nunca conheci alguém que também gostasse... Só falta você dizer que também gosta de Tarkovski... Não acredito!

— Você também não suporta televisão?

Enfim, trata-se de uma conversa que, com freqüência culmina com a célebre exclamação:

- Nossa, a gente tem tudo a ver!

Nesse ponto, a relação saltou para um outro patamar. A pessoa não apenas sabe qual o efeito que o outro corpo exerce sobre o seu, e que a conduz à impressão que esse outro corpo lhe convém e que é, como já disse, um conhecimento inadequado e enganoso, mas agora ela realmente conhece a relação (no caso, de conveniência) com aquele outro corpo e aquele outro corpo sob vários aspectos verdadeiramente lhe convém. Entre a pessoa e esse outro, há uma zona de comunidade e a descoberta dessa zona comum é vivida como um aumento ainda maior e consistente de potência.

A terceira e última etapa desta historinha é muito curiosa, porque envolve, pelo menos no nosso exemplo, um paradoxo. Socialmente falando, fazemos contratos formais, de "papel passado" em cartório, quando temos dúvidas a respeito do real cumprimento, no futuro, dos compromissos firmados pela outra parte. Na dúvida, faz-se um contrato. No caso da relação amorosa, acontece, com freqüência, um paradoxo, uma vez que as pessoas costumam fazer um contrato formal quando a confiança no outro está no auge.

Em geral é assim, não é? Por que será? Talvez porque a experiência de nossos antepassados nos ensine que, com o perdurar da relação, nós não temos, de fato, nenhuma garantia de que todos os compromissos serão mantidos. E por quê? Porque, embora nesses primeiros encontros se tenha experimentado um significativo aumento de potência (e que corresponderia ao chamado afeto de confiança, que advém da descoberta da zona de comunidade com o outro), também se sabe que, com o tempo, a relação ainda reserva desafios maiores. Com o tempo, descobre-se não apenas o que no outro corpo convém, o que há em comum, mas o que é que os dois não têm em comum - porque, mais cedo ou mais tarde, sempre acabamos por descobrir o que no outro há de diferente, e que pode corresponder ao que nele é seu traço mais singular. Muitas vezes, as relações e os indivíduos envolvidos nessas relações não têm potência suficiente para suportar todas as aventuras da diferença, porque é preciso ter muita potência para aceitar o que no outro não nos convém, aquilo que é sua diferença radical e, muitas vezes, sua expressão singular. Se essa zona de comunidade de fato é sólida, se no encontro com o outro a pessoa puder produzir o comum...

Aliás, nesse ponto, temos uma questão fundamental: no próprio exemplo dado (o da paquera), o comum aparece como o que é descoberto, como o que se revela na conversa. Descobre-se uma zona comum com o outro, mas uma relação não perdura se ficar apenas nisso, porque o comum não é só o que é descoberto como um comum já dado, mas o que deve ser ativamente produzido. É uma incessante tarefa produzir o comum, pois é essa produção (propriamente afetiva) que resulta no aumento de potência necessário para que possamos nos singularizar na relação.

Extrai-se desta pequena e comum história, a seguinte conclusão: as comu­nidades não estão dadas, as comunidades devem ser ativamente produzidas. De novo, tanto quanto as subjetividades singulares, trata-se de algo que é da ordem da produção. E uma produção propriamente afetiva, já que seu produto principal é esse aumento de potência. O passo seguinte será compreender que a produção do comum é a própria produção de subjetividade, enquanto produção das condi­ções coletivas de subjetivação, quiçá de produção de subjetividades singulares: produção de um plano coletivo de singularização existencial.

A Elma, em sua fala, propôs substituir a expressão "tolerar" por "acolher no outro o que é singular". Dando prosseguimento a essa idéia, proponho que a produção de uma existência singular, a singularização que nos está dada, talvez, como nosso maior desafio existencial, ela só encontra condições afetivas e potên­cia para se realizar na comunidade, na experiência de produção do comum.

Essa linha de pensamento inverte vários lugares-comuns na área da saúde como, por exemplo, a de que as comunidades estão dadas ou de que o singular e individual está em relativo conflito com o comum e coletivo. Espero ter conseguido transmitir a idéia de que a única possibilidade de realizarmos efetivamente a nossa singularidade existencial é no espaço do comum e que, por outro lado, esse comum não está dado, esse comum é a nossa produção humana diária e coletiva.

A Internet e as formas de interação que ela possibilita são especialmente propí­cias para a compreensão dessas colocações. Contudo, para além da Internet, hoje eu olho para o lugar onde trabalho, que é um Centro de Saúde, e me pergunto, tomando-o como dispositivo tecnológico: os nossos serviços de saúde têm ajuda­do as pessoas a encontrar suas comunidades? Eles têm propiciado bons encontros, seja em seus espaços próprios, seja remetendo seus usuários a outros espaços de encontros, fazendo-os, nesse movimento, ir ao encontro de seus espaços de comunidade, que são também aqueles onde encontrarão as melhores chances de se singularizar existencialmente?

Espero, com essas breves e rápidas provocações, ter conseguido levantar um conjunto interessante de questões sobre as comunidades, virtuais ou não.

 

REFERÊNCIAS

BEY, H. TAZ. The Temporary Autonomous Zone, Ontological Anarchy, Poetic Terrorism. New York: Autonomedia, 2003.

TEIXEIRA, RR. Humanização e Atenção Primária à Saúde. In: Ciência e Saúde Coletiva, 10(3): 585-597. 2005.