Epidemia e Mundo Securitário

Ricardo Rodrigues Teixeira

 

massas
NOVA YORK                               BUDAPESTE                                    TÓKIO
           manifestação de apoio à AIDS                   piscina pública             manifestação do aeroporto de Narita  

Resumo

Ensaio de interpretação das dimensões culturais das epidemias, a partir de um estudo realizado sobre as imagens que se revelam no processo de gênese e transformação das concepções modernas de contágio e epidemia. O exercício interpretativo é realizado diretamente sobre as imagens – descritas em suas formas ou diretamente mostradas. Assume, assim, um caráter abertamente intertextual e intersemiótico, que adentra a experimentação formal.

O estudo que está na origem deste ensaio permitiu a identificação de dois “esquemas epidêmicos” ou “modelos comunicacionais de epidemia”  epidemia de contágio e epidemia irradiada – que correspondem, de fato, a dois “regimes comunicacionais” que historicamente se sucederam. Aproximando questões estéticas e éticas, percebe-se de que modo a era dos esquemas irradiados assinalaria a afirmação de uma cultura securitária.

Introdução

Neste breve ensaio, busquei reunir alguns elementos para uma interpretação possível das chamadas dimensões culturais das EPIDEMIAS. Neste plano, pareceu-me especialmente interessante que as manifestações coletivas de doenças pudessem ser compreendidas segundo determinados modelos comunicacionais.

          O seu modo de exposição corresponde a uma sistematização a posteriori de uma trajetória de investigações e reflexões mais ampla do que a que se fará aqui representar, refletindo interesses intelectuais bastante diversos e que, num dado momento, se concentraram e concretizaram em torno a um objeto particular. Assim, preliminarmente, examinar as dimensões culturais das EPIDEMIAS significou centrar o foco da atenção na intensa mobilização de paixões e crenças, com seus movimentos de atração e repulsão, que se desencadeia num grupo quando nele está presente um risco de CONTÁGIO.

          Trabalhando sobre (e entre) as imagens que descrevem/prescrevem estes movimentos lidamos com um acontecimento a se desdobrar de um modo sumamente implicado na experiência humana. Nestas imagens, é possível a percepção das intensidades trágicas que cercam o acontecimento, a percepção de seus efeitos patéticos e de desagregação “imaginária”. Essa percepção, que se aproxima de uma espécie de "consciência” em altíssima tensão e essencialmente ligada aos sentidos, às sensações, invoca, pela sua própria força e violência, um esforço de ordenação da experiência. E se a ordenação se faz necessária é porque as intensidades experimentadas nos fatos (e nas imagens) são, em grande medida, insuportáveis. Por isso é preciso que a experiência se "esfrie"... justamente nas imagens, que são sempre mais fáceis de serem dirigidas e ordenadas, do que os próprios fatos.

Penso que não seja outra a ambigüidade trágica das imagens: é acesso ao que deve recalcar; é ocultamento do que pode revelar. Penso que não seja outro, o modo originalmente humano de criar e transformar os acontecimentos. Tampouco é outro, o proceder do presente trabalho diante do desdobrar das intensidades envolvidas na experiência humana das EPIDEMIAS e o modo como vem participar (com suas imagens) no devir do acontecimento presente.

Estas concepções a respeito da natureza do mundo representacional (em suas relações com o vivido, com o experienciado, com um fundo de intensidades vitais e de forças produtivas e destrutivas) são temas de uma discussão mais detida na Introdução da referida dissertação de mestrado (nota 1; pp.1-71). No presente ensaio, destilarei somente os aspectos mais “formais” da investigação realizada, extraindo-os de seus procedimentos básicos e dos principais resultados alcançados. O intuito maior, aqui, é o de estar introduzindo outras possibilidades de se pensar questões médico-sanitárias, que se abrem nas fronteiras da Comunicação e da Epidemiologia: uma possível poética dessa interface.

 

A   I M A G E M   M A T R I C I A L   É   A   P E S T E

 

“A palavra peste não continha apenas o que a ciência desejaria nela definir, mas uma longa procissão de imagens extraordinárias...”

Albert Camus, La peste. Paris, Gallimard, 1947 (Collection Folio, 1992); p.43.

 

 

 

 

 

DANÇA MACABRA:
tema literário e iconográfico relacionado às epidemias, do século XIII ao XVI

dança macabra

 

medicorvo

 

 

 

 

 

 

 

 

trajes médicos para visitar os pestíferos (séc. XVII)

 

 

“... a fisionomia espiritual de um Mal que escava o organismo até a laceração e até ao espasmo, como uma dor que, à medida que cresce em intensidade e se aprofunda, multiplica suas avenidas e suas riquezas em todos os círculos da sensibilidade. Dessa liberdade espiritual, com a qual a peste se desenvolve sem ratos, sem micróbios e sem contatos, pode-se tirar o jogo absoluto e sombrio de um espetáculo que irei tentar analisar."

Antonin Artaud, Le théâtre et son double. Paris, Gallimard, 1981; p.39.

bouche-nez
Bouche-nez perfurado com substância anti-gripe (sec. XX)

 

A peste de Tournai

O enterro de vítimas da peste ainda em caixões, antes do número de mortos obrigar aos enterros em massa, segundo Gilles le Muisit, The Plague of Tournai. Ms.13076, fol.24v., Bibliothèque Royale Albert 1er, Brussels.

 

Procedimentos

Levei a efeito uma aproximação semiótica (no sentido de uma hermenêutica dos signos em geral) das imagens culturais reveladas no processo de gênese e transformação das concepções modernas sobre contágio e epidemia.

          O trabalho hermenêutico realizado sobre as imagens vem caracterizar a dimensão cultural das epidemias como se constituindo no entretecer de   forma / sentido / valor.

          O objeto da análise são as formas.

          O objetivo da análise é fazer com que as formas sejam sentidas, façam sentido; saber que o que nas formas é sentido, faz sentido; o que nas formas é valor.

    Realizar a síntese dos sentidos nas formas:

- o conhecido pelas sensações;

- a orientação de um movimento;

- o significado/valor.

    São os movimentos que revolvem as imagens que se fazem objeto da análise. Movimentos que decorrem de suas relações diferenciais, de suas alterações: seus transportes - metáforas, e suas transformações - metamorfoses.

    Nesse exame das formas e de seus principais movimentos, segui três passos:

    O primeiro consistiu numa pesquisa semântica, realizada no nível das palavras (“peste” e “epidemia”), partindo de seus étimos, de seus elementos significantes duráveis. Com freqüência, o exercício etimológico nos conduz a significantes perdidos, que foram sendo ocultados durante a trajetória da língua. Com freqüência, a pesquisa etimológica reintroduz uma certa “dissonância” na palavra, ao redescobrir no significante gasto, pedaços das "imagens acústicas"[1] que já não ouvimos mais: não se trata do som material das palavras faladas, mas de suas impressões espirituais; assim, também não se trata de um simples desgaste ou perda: o que se passa com essas “imagens acústicas“ é que elas se encontram num processo ininterrupto de transformações, que é o próprio devir da língua, que é o devir da nossa cultura: um devir permanente nas imagens, um devir das palavras, nosso devir.

    O segundo passo desta análise das formas teve início já durante essa aproximação etimológica das palavras, e consistiu em acompanhar os seus trânsitos pelos diversos campos discursivos, pelos diferentes campos semânticos - próprios e figurados. Em cada uma dessas passagens, a cada novo uso das palavras, as suas imagens passam inevitavelmente por mutações. Jamais uma forma veicula um sentido para outro campo semântico e se mantém in-tata. As novas formas, com que vem estabelecer trocas, con-tatos, modificam seus contornos, proporcionando novos encaixes.

          O terceiro passo, por fim, compreendeu um processo de “depuração” das formas gerais que foram sendo identificadas durante os dois passos anteriores; corresponde à etapa de maior densidade interpretativa do trabalho e efetivou-se pela análise dos dois movimentos básicos das formas na linguagem: de um campo semântico a outro (metáforas) e de uma forma a outra (metamorfoses)...

 

O S   M O V I M E N T O S   D A S   I M A G E N S

Metáforas = transportar um sentido próprio de um campo de significação a outro; esse “além-carregar” se faz possível graças à sutil conversão de um “sentido próprio” num “sentido figurado”; o “meio de transporte” são as figuras, as imagens, são elas que carregam os sentidos aos campos semânticos estrangeiros; os sentidos só viajam na materialidade das formas, que lhes asseguram a sobrevivência “fora de si”, a permanência do seu significado/valor no “além” do seu campo de enraizamento vital.

Essas transferências de significado/valor só ocorrem porque é sempre possível sentir as mesmas imagens em diferentes campos da experiência e porque imagens de outros campos, com seus “sentidos próprios”, sempre fazem possível viver outros sentidos na experiência que vêm “figurar”.

            (Voltando à metáfora da virulência simbólica das metáforas: conforme circulam, quanto mais circulam, por quanto mais âmbitos semânticos circulam, mais aumentam as chances de se produzir um efeito mutagênico, provocado pelas múltiplas colisões de sentido, pelas intensas trocas simbólicas realizadas nessas viagens...)

 

Metamorfose = enquanto a metáfora é a conservação de uma imagem para a transferência de um sentido, a metamorfose é a mutação de uma imagem associada a virtuais transformações nos seus sentidos; quando, nos sucessivos intercâmbios simbólicos, começamos a perceber o surgimento, em diferentes campos semânticos, de um novo “sentido figurado”, diretamente derivado do primeiro, mas dele já diferindo por mudanças notáveis na imagem, na matéria significante (o que deve corresponder a novos “sentidos próprios” àqueles campos da experiência humana), então estamos diante da metamorfose do signo. Então podemos intuir nas formas um devir do acontecimento...

A   M E T Á F O R A   M A T R I C I A L   É   A   P E S T E

a peste é uma metáfora da aids

e

a aids é uma metamorfose da peste  

A irrupção da A.I.D.S. dá-se no centro da cena do otimismo tecnológico ocidental moderno, e vem lançar sombras sobre uma cultura que acreditava avançar a passos largos para a conquista de um mundo sem mal, ou pelo menos, de um mundo da gestão calculada do mal. O "fim das pestilências", particularmente a vitória sobre as doenças infecciosas, é justamente um dos mais brandidos estandartes desta conquista.

          A metáfora da Peste assinala o retorno à cena cultural de elementos que pareciam desaparecidos há muito e para sempre: é a irrupção da tragédia, com sua força mítica e atmosfera de carnagem. É a fisionomia espiritual de um mal, introduzindo um princípio de reversão nos nossos sistemas interpretativos.

          Contudo, se a epidemia de A.I.D.S. pode ser, e efetivamente tem sido, comparada à Peste, não podemos dizer que estejamos diante de nada parecido com o que foi, ou parece ter sido, sua experiência histórica. A primeira impressão que temos é de que a principal diferença reside numa espécie de modulação do medo que acompanha a experiência atual e que, em absoluto, estava dada nas antigas visitações da Peste. Há ameaça, estamos de fato sob o signo do mal, mas o medo é cool. Enquanto grande mal, esta epidemia parece situar o risco da catástrofe tendencialmente sobre os sistemas de defesa: é a sua falência que é temida. E duplamente!

"O corpo humano poderá cada vez menos contar com seus anticorpos e deverá cada vez mais proteger-se do exterior. A purificação artificial de todos os meios, de todos os ambientes substituirá aos sistemas imunológicos internos em falência. E se eles estão falindo é porque uma tendência irreversível, chamada progresso, desapropria o corpo e o espírito humano de seus sistemas próprios de iniciativa e defesa, transferindo-os para artefatos técnicos. Despossuído de suas defesas, o homem torna-se eminentemente vulnerável à ciência. Despossuído de suas fantasias, ele se torna eminentemente vulnerável à profusão de imagens artificiais. Despossuído de seus germes, ele se torna eminentemente vulnerável à medicina (eu nem ouso evocar o domínio do espírito e do pensamento, onde a extinção de anticorpos progrediu bem mais rápido ainda, e que por isso mesmo tornou-se vulnerável a todas as ideologias, a todas as epidemias de calúnia e verdade - em breve também será preciso embalá-las a vácuo e protegê-las de todos os miasmas - do que se encarregam vivamente as instituições culturais e políticas."

Jean Baudrillard, L'enfant-bulle.  TRAVERSES/32
(pub. do Centro de Criação Industrial do Centro Nacional de Arte e de Cultura Georges Pompidou - Paris), p.16, setembro 1984.

 

    O clima de pânico discreto promovido pela A.I.D.S. sugere que aquilo que se vive é percebido como um grande teste para os modernos dispositivos de direcionamento de sombras (entre os quais todo o sistema  midiático tem desempenhado, sem dúvida, uma função central); há um suspense envolvendo nossos sistemas de defesa, mas há também, em relação a esses, um clima preferencialmente de confiança, impressão que parece confirmar-se na maior parte dos estudos empíricos que pude examinar, onde as apreciações apocalípticas costumam ser francamente minoritárias.

 

Resultados

peste - dança macabra

 

 

 

 

 

 

 

PESTE, do latim pestis, "doença contagiosa, particularmente doença pestilencial, peste, epidemia". Mas também, desde a época clássica, palavra empregada metaforicamente, significando "flagelo, ruína, infelicidade, destruição, morte", em se falando de coisas ou pessoas nocivas.

Circulando tanto por textos religiosos e poéticos, quanto por tratados médicos e códigos sanitários, a palavra pestis e suas derivadas aí aparecem designando, ostensivamente, um mal terrível, uma grande desgraça, ou ainda, uma condição poluída, contaminada, insalubre, insana e freqüentemente mortal. Doença contagiosa, sim, mas sobretudo, grande mal. Coalescência, numa única palavra, de dois núcleos semânticos: contágio/morte.

          Outra é a etimologia da palavra grega EPIDEMIA: palavra a dois componentes: epi - dêmos = sobre - povo, alguma coisa que se dá sobre o povo, alguma coisa que ocorre num determinado lugar, alguma coisa que circula entre o povo de um lugar, de uma determinada região ou país. Ressalta-se, aqui, um sentido de visitação: alguma coisa estende-se sobre aquele povo, alguma coisa que está naquele lugar, mas fundamentalmente alguma coisa que chega, alguma coisa que em situação normal lhe é exterior, estrangeira, estranha: um forasteiro, uma chuva, uma doença ou uma guerra.

          Nos textos latinos, surge no século XII como uma forma erudita de designação  do fenômeno social que até então recebera o nome de pestis. A partir dessa época, esse antiqüíssimo acontecimento da vida coletiva ganhou um novo nome no universo dos sábios: epidemia. Substitui-se, então, uma designação com forte apelo ontológico, por outra mais descritiva e fenomênica, precisamente porque não acentua tanto a essência do mal, mas muito mais a forma geral do fenômeno.

    Como se vê, mesmo antes das palavras peste e epidemia ingressarem na história das línguas modernas, já apresentavam uma elevada "contagiosidade semântica". Essa "virulência metafórica"  é dado original nestas palavras e já a encontramos presente nos seus étimos.

    Falo em "contagiosidade semântica" porque o "vírus", nesse contágio, é o sentido. Nas metáforas, as formas deslizam de um campo a outro da linguagem, através da continuidade de um sentido.

    A peste é, principalmente, "transmitida" nos discursos, através dos sentidos de morte/contágio/grande mal. A epidemia "pega", sobretudo, pelos sentidos de mudança súbita de estado/visitação do coletivo, mas nem sempre pelo sentido de contágio. A dupla relação determinada desses sentidos está expressa nas locuções latina e grega:  pestifer bellum / pólemos epidemía = "guerra funesta" / "guerra civil".

    Pestepidemia: neste conglomerado semântico, é a epidemia que se destaca como a fração de sentido mais virulento, de metaforização mais irrestrita. Em relação à peste, apresenta-se mais afastada da experiência da dor terrível e, por esse motivo, mais propensa a libertar um modelo geral abstrato, que congregaria todas as imagens possíveis da epidemia. A noção de contágio que se liga à epidemia não é necessariamente imunda ou mortífera, como no caso da peste, mas pode ter apenas o sentido de uma circulação de efeitos inespecíficos. E há mesmo uma forma mais geral de epidemia, que prescinde de qualquer noção de contágio e aplica-se, simplesmente a qualquer coisa que se estenda sobre a população, qualquer coisa que em situação normal lhe é exterior.

          Neste ponto, começamos a intuir a existência de duas formas gerais do mesmo fenômeno, em princípio diferenciadas pela presença ou não do contágio. A partir daí, o esforço investigativo passou a se concentrar na busca dos planos de clivagem capazes de fender precisamente as duas formas gerais que se dissimulam nas manifestações coletivas de doenças.

          Foi possível identificar dois esquemas epidêmicos ou dois “modelos comunicacionais” de epidemia - epidemia de contágio e epidemia irradiada - enquanto duas formas gerais do mesmo fenômeno, que correspondem, de fato, a dois grandes “regimes comunicacionais” ou “regimes de socialidade” que historicamente se sucederam.

    Todo acontecimento epidêmico remete, em última instância, à questão do vínculo social. As epidemias dirigem nossa atenção para aquele lugar em que se interpenetram o individual e o coletivo, o eu e o outro, o lugar da troca, do contato, do contágio, que é própria figura do vínculo social direto.

          Nas mencionadas epidemias em que o contágio está ausente, esta referência ao vínculo social não desaparece, ele apenas passa a se dar pela via indireta. Nesse esquema epidêmico já estamos diante de um outro regime de trocas sociais e simbólicas, de um outro modo de mediar as relações individual-coletivo, eu-outro.

    Temos, então, dois esquemas epidêmicos: num prevalece o contágio endógeno ao grupo, a dinâmica da propagação por encadeamento, a difusão interativa (prevalece o vínculo social direto); no outro prevalece a contaminação irradiada a partir de uma instância exterior ao grupo, a estática das posições individuais, a exposição aos "riscos" (prevalece o vínculo social indireto).

    A coexistência dos dois esquemas da epidemia parece dar-se universalmente e em todas as épocas, como dois passos do mesmo andar, duas asas do mesmo vôo. Isto não impede, entretanto, que em cada momento e lugar, possamos identificar a proeminência simbólica de um desses esquemas. A afirmação mais geral que pode ser feita a esse respeito, considerando-se a história das sociedades ocidentais, é a de que prevaleceu, por mais de dois mil anos, o esquema da epidemia contagiosa, sendo que este só veio perder sua proeminência, muito recentemente, para o esquema da epidemia irradiada. Esse processo de mutação acompanhou de perto a instalação, nos últimos trezentos anos, de todos os dispositivos sociais desenvolvidos para combater as grandes pestes. Pode-se dizer que um modelo “derrotou” culturalmente o outro. E essa “derrota” se deu por um ganho de velocidade de um modelo sobre outro.

sanatóriobacilos

Paris, 1905: galeria de cura de tuberculose num sanatório popular

Bacilos de Koch

 

A experiência primordial é da epidemia de contágio, que apresenta uma velocidade finita e mesmo uma certa lentidão de propagação, o que permitiu que a epidemia fosse não apenas compreendida, mas também que, a seguir, se ganhasse velocidade sobre ela.

          O que caracteriza esse primeiro modelo  é a sua referência a um modo de propagação por encadeamento espontâneo, isto é, um modo de propagação que se dá ao sabor dos contatos entre os elementos "condutores" daquele sistema. Trata-se de um modelo de epidemia fundamentalmente referido a uma dinâmica dos contatos sociais.

          Contudo, os fenômenos de contágio tornaram-se lentos demais diante da maior parte das mudanças de estado que se produzem nas populações e que não se propagam mais de pessoa a pessoa. Elas decorrem de condições exteriores e centrais que são impostas a todos. O regime da difusão interativa é ultrapassado pelo regime da irradiação. Ou, do ponto de vista das populações, pelo regime da exposição, onde tudo depende, para cada um, da posição que ocupa em relação às instâncias centrais. Portanto, um modelo fundamentalmente referido a uma estática das posições individuais.

          E não seria exatamente este o modelo atual da própria epidemiologia - o estudo dos efeitos da irradiação seletiva de todos, da exposição de todos aos riscos de doenças?

    No esquema irradiado, o importante não é mais a posição ocupada em relação aos outros, qualquer que seja o sentido dado a essa relação. O que conta é a posição ocupada em relação às instâncias centrais. O risco é calculado em função das posições, dos lugares ocupados pelos indivíduos, nos mais diversos sistemas irradiados. Ele define um certo coeficiente de exposição que, idealmente, pode ser tratado em termos de exposição a fatores de agressão e a fatores de proteção. Tudo se passa como se o risco, em epidemiologia, fosse o cálculo integrado do conjunto de posições ocupadas pelos indivíduos, nos diversos sistemas irradiados, tanto de agressão, quanto de proteção; é o balanço das suas exposições favoráveis e desfavoráveis.

    O esquema da epidemia irradiada é o esquema das velocidades infinitas, da simultaneidade e massividade dos acontecimentos, sem apresentar o caráter seqüencial do contágio. Há uma chance calculável para cada indivíduo, e essa chance depende da posição que cada um vem ocupar em relação aos centros de irradiação, tanto de elementos nocivos (geralmente descritos em termos de agressões ambientais, condições de trabalho, hábitos de vida), quanto de elementos benéficos (geralmente traduzidos em termos de acesso a determinados bens materiais e culturais, particularmente em termos de acesso a serviços médicos e informações). Nesse sentido é que se pode dizer que, mesmo após a regressão das pestilências "clássicas", o objeto da epidemiologia continua sendo as "epidemias" (tanto de doenças, quanto de tratamentos; tanto de ameaças, quanto de preservativos; tanto de perigos, quanto de seguranças), só que agora elas se comportam, via de regra, segundo fenômenos de irradiação.

          Pode-se dizer, então, que a era das epidemias irradiadas foi anunciada pela instalação de sistemas simbólicos e técnicos de tipo irradiado, que  pouco a pouco foram constrangendo o vínculo social direto a respeitar a proeminência do vínculo social indireto, estabelecido e reforçado por aquelas instâncias. O esquema do contágio, correspondente à lei de talião, é substituído pelo esquema irradiado, correspondente à posição exterior da lei (o Estado e a violência legitimada), que pressupõe a ex-posição de todos a uma instância central. É esta exposição total a uma instância exterior que, em princípio, interditaria as circulações e desencadeamentos de epidemias e violências dentro do grupo, do mesmo modo que, metaforicamente, "as armas nucleares portadas por satélites, materializando a exposição última e total do planeta, viriam congelar o regime comum da guerra."

    Nas epidemias irradiadas, temos a referência a um modo de sociabilidade inteiramente distinto daquele presente nas epidemias contagiosas. Nessas últimas, os contatos potencialmente contagiosos tecem uma sociabilidade basicamente fundada em reações ambivalentes de medo e fascinação e o que há de mais marcante é a sua referência ao contato direto entre as pessoas. Por outro lado, quando a epidemia contagiosa é vencida...

"... resta apenas uma ligação mínima e indireta entre os homens: simples co-presença sobre um único planeta e  solidão comum face à morte. O fim da epidemia é, portanto, também o início do individualismo como destino fatal da humanidade, aconteça o que acontecer. O fim da epidemia não apenas expõe os homens a esta fatalidade última, mas os expõe também às instâncias capazes de vigiar, controlar e irradiar (através de vacinas, por exemplo) o social. Essa exposição a instâncias construídas, levando a uma hominização total do planeta, redobra a solidão do indivíduo face à natureza, pela sua solidão face ao social, e faz emergir o individualismo não mais como destino fatal, mas como conjunto de valores  e práticas."

Marc Guillaume,  Les métamorphoses de l'épidemie.
TRAVERSES/32,  p.9, setembro 1984.

radarhelper

  detalhe de antena de radar

     linfócito “helper”(CD4)

Securitarismo

A metáfora máxima da epidemia irradiada, atualmente, é a da mídia e da informação. O jornalismo e, mais geralmente, toda informação controlada centralmente, parece nutrir-se dos boatos, da energia “virulenta” dos boatos, mas, na realidade, visa justamente acabar com os boatos, visa suprimir sua “virulência”. O modo como é exercido esse controle da informação não é apenas pela via direta da censura, do desmentido, da manipulação, mas pela via mais sutil da amplificação do boato, da aceleração da sua circulação para reduzir seu ciclo de vida e neutralizar seus efeitos (a banalização dos signos!), modo que, no fundo, reforça ainda mais a metáfora epidêmica da mídia, pois remete ao próprio princípio das vacinas.

    Se o caminho para a neutralização de um boato que ameaça generalizar-se contagiosamente pela massa consiste numa espécie de irradiação total de informações, que faz de toda partícula de sentido contida naquele boato um "vírus atenuado", da mesma forma, para que uma informação irradiada sobre a massa volte a fazer sentido, é preciso que ela também circule entre a massa, nos boatos, nas conversas. Os publicitários, em geral, sabem disso, dessa necessidade de "hibridar" os modelos da irradiação e do contágio, de estabelecer o "two-steps flow of information"...

          Uma base importante para o enfrentamento das principais epidemias, hoje, é justamente a irradiação de informações. A “eficácia tecnológica” dos dispositivos de irradiação é medida pela sua capacidade de vencer em velocidade a propagação seqüencial do vírus (e não há dúvida de que a epidemia irradiada de imagens e informações sobre a A.I.D.S. ultrapassou em muito a velocidade de propagação do próprio vírus). O problema é que essa “eficácia tecnológica” não consegue se fazer acompanhar no mesmo ritmo, por uma “eficácia simbólica” da informação, medida pela sua capacidade de produzir  os efeitos “anti-apidêmicos” esperados. Essa última, já parece estar sujeita a um ritmo muito mais lento e responde a uma lógica viral, de contágio entre as pessoas.

    Contudo, não se pode dizer que toda essa super-exposição midiática seja sem eficácia. Ela tem sua eficácia própria e também pode, às vezes, desencadear alguns fenômenos de contágio. A super-exposição midiática é a nossa super-exposição às imagens artificiais, às tele-imagens; e as imagens sempre fazem surgir crenças e paixões imediatas, nos fazem experimentar expectativas e medos. A eficácia dessa irradiação exorbitante promovida pela  mídia, como já disse, é comparável à da vacina: ela irradia medo até o limite de uma contra-epidemia (contagiosa, esta) de obsessão securitária: a vacina contém o vírus, como o medo contém toda a epidemia e seus horrores, capazes de provocar uma reação imuno-securitária.

          É preciso insistir uma vez mais sobre essa diferença de velocidade entre os dois esquemas, pois se os fenômenos de contágio puderam ser "dominados", é porque os dispositivos técnicos e institucionais de tipo irradiado souberam ser mais rápidos que qualquer outra epidemia. Pode-se dizer que esta rapidez é o traço fundamental deste esquema irradiado, é aquele que lhe confere todo o seu poder e todo o seu risco:

"E é essa eficácia mesma que leva à proliferação e banalização dos dispositivos de irradiação: multiplicação de novas mídias, disseminação de armamentos nucleares, terrorismo e miniaturização das armas. Graças a estes novos dispositivos, os poderes procuram constituir-se, à imagem dos poderes tradicionais, pela conquista de posições que lhes permitam expor os seus meios circundantes a uma irradiação de influências, de interditos, de ameaças e de controles. Isto leva a uma escalada sem fim de fluxos reais e potenciais - a guerra das radiofreqüências, a corrida armamentista -, alimentada, ela mesma, por dispositivos antagonistas que irradiam controle securitário. A exposição sanitária - basicamente, as vacinas contra os vírus - foi sucedida pela super-exposição securitária. A tudo aquilo que ameaça irradiar o corpo (individual e social), opõem-se as contra-irradiações de prevenção e controle."

Marc Guillaume,  Les métamorphoses de l'épidemie.  TRAVERSES/32,  p.13, setembro 1984.

 

É a própria proteção sanitária e securitária que assume a forma epidêmica...

ROMA                                            TÓKIO                                           ROMA
mosaico grego: Conhece-te a ti mesmo             piscina pública                         Mussolini assiste a uma parada

Referências Bibliográficas  

1.  ACKERMANN, Werner; Dulong, Renaud; JEUDY, Henri-Pierre. Imaginaires de l'insécurité. Paris, Librairie des Méridiens, 1983.

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3. BAUDRILLARD, Jean. L'enfant-bulle. In: TRAVERSES. L'épidémie. Paris. Centre Georges Pompidou, Editions de Minuit, n.32, septembre 1984.

 

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5. BIRABEN, Jean-Noël. L'epidémiologie n'est plus ce qu'elle était. In: TRAVERSES. L'épidémie. Paris, Centre Georges Pompidou, n. 32, septembre 1984.

 

6. DA CUNHA, Antonio Geraldo. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. São Paulo, Nova Fronteira, 1982.

 

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12. ___________________. Le désir de catastrophe. Paris, Aubier, 1990.

 

13. LE BRETON, David. Passion du risque. Paris, Métailé, 1991.

 

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20. SOURNIA, Jean-Charles; RUFFIE, Jacques. As epidemias na história do homem. Lisboa, Edições 70, 1986.

medicorvos

[1]Conforme a definição saussuriana de “significante”.