Informação e comunicação
em Saúde do Adulto: programas e ações na unidade básica.

Ricardo Rodrigues Teixeira    

 

Pelo menos desde o final da década de 80, a temática da “Informação e Comunicação” vem adquirindo uma importância crescente no debate das questões sanitárias, especialmente naquele que vem se dando em torno da preocupação com o controle social do Sistema Único de Saúde (SUS). Parece haver um consenso de que uma política de informações para o SUS constitui uma condição necessária para a efetivação das diretrizes de descentralização e democratização. Neste contexto, parece justo que o termo “informação” preceda o termo “comunicação” no binômio que designa o campo temático, pois, como veremos, é bem esta a ordem de subordinação dos problemas.

A informação em saúde é habitualmente entendida como o conjunto das informações sociais, demográficas e epidemiológicas, produzidas por instituições públicas e privadas, utilizadas como apoio ao planejamento e à tomada de decisão. Trata-se, portanto, fundamentalmente, de um instrumento de gerência.

Os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) definem-se como tecnologias de coleta, processamento, análise e difusão das informações de saúde. No nível de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que é aquele em que iremos concentrar nossas observações, identifica-se a possibilidade de dois grandes tipos de SIS, diferenciados pelos seus objetivos: a Vigilância Epidemiológica (de doenças transmissíveis, câncer ginecológico etc.) e os Sistemas de avaliação e garantia da qualidade (que constitui o instrumento básico para a gestão da UBS, produzindo indicadores de rendimento e utilização do serviço). Ambos são objeto de capítulos específicos nesta publicação (respectivamente capítulos 10 e 8) e não é sobre eles, na suas especificidades, que iremos nos deter. Aqui, examinaremos, em particular, o modo pelo qual, mais recentemente, à problemática da informação em saúde, vêm se vincular demandas “comunicacionais” e as suas principais implicações para um projeto de organização das ações de uma UBS.

No contexto de um debate sobre o controle social do SUS, o componente “difusão” ou “disseminação” das informações sanitárias passa a ser visto como instrumento de transparência e garantia da participação popular nos processos de gestão dos serviços e programas de saúde. A democratização da informação é, então, considerada como essencial para a construção da cidadania. Descentralizar e democratizar a gestão dos serviços de saúde pressupõe a descentralização e a democratização das informações de saúde. Segundo Pitta (1994), essas concepções vêm colocar novas demandas para as práticas de comunicação e educação em saúde e representam, no contexto do processo de integração institucional pelo qual tem passado o setor, o encontro de tradições gerenciais advindas das instituições previdenciárias com o discurso sanitarista da “participação popular” nos serviços de saúde. Se, por um lado, a participação da população se institucionaliza com a criação dos Conselhos de Saúde (lei 8142/90), por outro, um  novo objetivo passa a se colocar para as práticas “comunicacionais” em saúde: garantir a democratização do acesso à informação.

Mas, o que significa democratizar o acesso à informação? Garantir a mais ampla divulgação da informação, bem como a sua chegada a todos os espaços de participação? Ou significa também democratizar o processo de decisão sobre as  próprias finalidades de um sistema de informações e, conseqüentemente,  sobre as informações a serem geradas?

Há um reconhecimento geral no campo de que o acesso ao “dado frio”, por si só, não é capaz de assumir importância no processo de participação da sociedade na formulação de políticas e nas ações. Daí, as propostas de articulação da área de informação com as áreas de comunicação e educação. O relatório final da Oficina de Trabalho “Uso e disseminação de informações em saúde”(Brasil. M.S.,1994) deixa claro esse aspecto:

Mesmo quando possível, o eventual acesso às informações apresenta dificuldades em esgotar o potencial informativo dos dados. As informações divulgadas sob a forma de relatórios ou outros meios, nem sempre são compreensíveis para os diversos segmentos da sociedade, apontando para a falta de integração e articulação entre as áreas de informação e comunicação social nas diversas esferas do SUS."

Num outro documento, produzido pelo Grupo de Trabalho “Informação em saúde e população - (ABRASCO/ABEP, 1993), afirma-se:

“Na definição dos processos de disseminação de informações é fundamental a participação dos profissionais das áreas de comunicação e educação, apontando e implementando alternativas de meios e linguagens mais adequados aos diferentes públicos, previamente definidos no planejamento das ações dessas áreas.”

Compreende-se, então, que disseminar a informação ou garantir o acesso à informação, consiste não só em divulgar dados, mas também em capacitar para o seu uso. Ainda segundo o último documento acima citado, demanda-se às práticas de comunicação a “construção de um ‘diálogo’  no qual se estabeleça uma decodificação da retórica técnica para uma retórica popular, em seu caminho de avanço da Consciência Sanitária”, o que explicita, com suficiente clareza, a já apontada subordinação das práticas de comunicação às novas concepções sobre a democratização dos processos gerenciais dos serviços de saúde.

Não se trata de uma novidade, entretanto, esta subordinação das práticas de comunicação à esfera do planejamento e administração. Na realidade, se retrocedêssemos às origens do campo da comunicação em saúde, especialmente na América Latina, poderíamos constatar essa estreita subordinação, em todas as suas fases. Tomemos apenas o exemplo mais significativo: as propostas de comunicação em saúde “desenvolvimentistas”.

 

Embora a comunicação em saúde tenha se consolidado como campo bem definido de investigações e práticas apenas no contexto desenvolvimentista dos anos 50-60, já podemos identificar preocupações “comunicacionais” presentes no campo da saúde, pelo menos, desde a década de 20. São marcos institucionais significativos desses primórdios: em nível nacional, a Reforma Carlos Chagas (1920), que, pela primeira vez, propunha associar técnicas de propaganda à educação sanitária (Pitta, 1994); no estado de São Paulo, a Reforma Paula Souza (1925), que adotava a “educação sanitária” como o instrumento de ação privilegiado (Merhy, 1985; Nemes, 1993 e Mendes Gonçalves, 1994). Tais propostas denotam a emergência, naquele momento, de “novas” concepções a respeito do objeto de trabalho da saúde pública, que consistiam em estar associando o comportamento individual ao desenvolvimento das doenças (da pobreza, principalmente, segundo a teoria do “ciclo vicioso pobreza-ignorância-doença”). De fato, o objetivo  fundamental da educação em saúde tem sido:

“...modificação em sentido favorável dos conhecimentos, atitudes e comportamentos de saúde de indivíduos, grupos e coletividades. O objetivo último são os comportamentos. A modificação dos conhecimentos e atitudes não é mais que um veículo para a mudança de comportamento.” (Sanmartí, 1991)

Os saberes e práticas relativos aos fenômenos comunicacionais massivos que começaram a se desenvolver na primeira metade do século, sobretudo nos Estados Unidos, principalmente no campo da “psicologia política”, desde logo foram vistos como instrumentos capazes de aumentar a eficácia da educação sanitária. Baseados nas concepções “comportamentalistas” que impregnavam a psicologia norte-americana daquele período, o emergente campo da comunicação de massas assumia que a conduta poderia ser explicada segundo um modelo emissor-receptor, em que o emissor aplica determinados “estímulos” e obtém determinadas “respostas” em massas.

Na América Latina, será na década de 60 que veremos se perfilar uma forte e ampla linha de investigações no campo, denominada “comunicação para o desenvolvimento” (principais frentes: “comunicação e saúde” e “difusão de inovações tecnológicas em meio rural”),  grande responsável pela atualização latino-americana das teorias da mass comunication research. No contexto das ideologias desenvolvimentistas, o modelo emissor- receptor é sobreposto ao par moderno-arcaico, definindo, nesta relação vertical, a forma geral da relação entre o “centro” e a “periferia”, entre o “urbano” e o “rural”, entre as “elites” e o “povo”, nestas sociedades. As mudanças de comportamento pretendidas e as tecnologias “comunicacionais” acionadas subordinam-se fielmente às exigências dos programas desenvolvimentistas e, mais especificamente, aos planejamentos setoriais. Nesse contexto, os objetivos da educação sanitária desdobram-se: modificar os comportamentos insanos (bem como ensinar a ser um “bom doente”), mas também fazer “compreender a necessidade” dos programas e estimular a participação ativa.

Para abreviarmos essa retomada histórica do campo da comunicação em saúde e, ao mesmo tempo, retermos o essencial para os fins da presente discussão, são apresentadas a seguir, resumidamente, as principais características tecnológicas das práticas de comunicação em saúde amadurecidas neste período e que conformam, até hoje, as concepções hegemônicas no campo: 

NÚCLEO TÉCNICO FUNDAMENTAL
DAS PRÁTICAS DE COMUNICAÇÃO EM SAÚDE

   

pressuposto de uma falta ou atraso a ser superado

 

 

superação do atraso através de conhecimentos técnicos e científicos

 

 

campo emissor de mensagens elabora discursos com elementos comuns,estabelecendo uma sintonia com o campo receptor

 

 

mensagens se oferecem como um “poder organizador” do conhecimento do outro

 

 

uso dos meios como possibilidade de “extensão de saberes” e “mobilização das pessoas”, buscando a adesão da população às políticas, programas e  conhecimentos previamente definidos

 

Ainda de um modo esquemático, podemos distinguir dois momentos principais (que são também modelos que coexistem) da comunicação em saúde, no Brasil: a “comunicação para o desenvolvimento” e, agora, a “comunicação para a gestão participativa”. Na primeira, temos a comunicação aproximada da problemática da educação em saúde e toda a ênfase está colocada na mudança dos comportamentos num sentido mais favorável à saúde ou tido como mais “moderno”, segundo os objetivos colocados pelo planejamento social. Na segunda, a comunicação aproxima-se da problemática da informação em saúde e a ênfase passa a estar colocada na mudança dos comportamentos num sentido favorável à participação e ao controle social do sistema de atenção, segundo determinadas concepções sobre a gerência e o planejamento democráticos.

Não convém, entretanto, que exageremos a diferenciação dos dois modelos. Uma boa parte das atuais propostas de difusão de informações sobre os serviços não são pensadas apenas segundo a ótica do “controle social”. Estão voltadas também para a operacionalização de ações de saúde, em que as informações vêm gerar fluxos e dirigir a demanda através dos serviços, englobando um conjunto de práticas de comunicação de “apoio ao usuário” ou para o “melhor uso” dos serviços. Estas práticas de difusão de informações não deixam de guardar uma certa analogia com o “velho” objetivo colocado para a educação em saúde de que a população “compreenda a necessidade”  dos programas. Tampouco podemos dizer que haja uma total ruptura com o “velho” esquema da educação higienista do “ciclo vicioso pobreza - desinformação - doença”, ainda que a idéia de “posse da informação” venha a se associar, nesse caso, ao melhor uso do serviço. Ocorre simplesmente que, na atualidade, cada vez mais, informações sobre o funcionamento dos serviços são tão importantes para a saúde quanto informações sobre o funcionamento do corpo... Por um lado, essa visão adequa-se perfeitamente ao esquema geral de uma cultura securitária e medicalizadora; por outro, supondo a realização plena desse ideal “informacional” - que deve se dar sob o signo da autonomia crescente dos sujeitos (apesar da  flagrante contradição com propostas medicalizadoras, que aprofundam a dependência do “estado de saúde” dos indivíduos em relação aos aparatos tecnológicos e burocráticos) - teríamos, no limite extremo, uma espécie de utopia self-service da vida cidadã, onde a introjeção da “necessidade” e do modo de satisfazê-la é tal, que o usuário-cidadão seria o “consumidor perfeito” dos serviços... Não demorará muito, contudo, e também descobriremos, como nas “velhas” experiências de educação higienista, que a simples difusão das chamadas “informações em saúde”, mesmo quando traduzidas para a “retórica popular”, não são capazes por si só de produzir as atitudes e comportamentos esperados pelas instituições.

Com isso, não pretendemos induzir a pensar que as propostas assentadas sobre o tripé informação/controle social/ apoio ao usuário não tenham validade e não mereçam ser tentadas. Simplesmente não as tomaríamos pela estrita subordinação instrumental da comunicação (com sua conseqüente expectativa de eficácia) aos objetivos colocados pelas propostas de democratização da gestão e otimização do consumo. Em outros termos, uma coisa é tomá-las como ponto de partida para um percurso futuro, outra coisa é achar já ter chegado ao fim.

Em muitos casos, por exemplo, os meios utilizados para “abrir” os serviços para a população usuária são autênticas “aberturas” de diálogo, muito mais do que meios para se atingir objetivos bem definidos e “fechados”. Numa UBS, podemos lançar mão de folders explicativos, cartazes ou vídeos, para apresentar o serviço e seu funcionamento, mas outro será o significado da informação se esta for obtida diretamente com os trabalhadores que fazem a recepção do usuário na unidade e nos diferentes setores de administração e assistência, e ainda outro, se esta informação for obtida nos “Grupos de Recepção da Demanda”(Dalmaso, 1994 e cf. capítulo 7). Temos, nestes últimos dois meios, não apenas uma maior chance de “eficácia” dos objetivos pré-definidos pela instituição, mas uma maior chance de diálogo usuário-instituição. Estes devem ser os meios preferenciais sempre que se deseja, não simplesmente a passagem unidirecional da informação, mas a troca, o que é um modo interessante de se reconhecer e estar incorporando a participação do usuário no nível da própria UBS, não a restringindo aos espaços de participação formais e à tomada de decisões segundo concepções gerenciais clássicas. Em outros termos, todos os espaços de encontro, individuais ou grupais, numa UBS, são meios preferenciais sempre que a questão não for meramente incutir a “necessidade” e o modo de satisfazê-la, mas acolher a participação do  usuário “por dentro” dos atos de assistência.

Voltamos a advertir que não se quer, aqui, minimizar a importância de todas as iniciativas voltadas para a gestão participativa dos serviços de saúde, que precisam ser desenvolvidas desde o nível das UBS. Trata-se, sim, de não restringi-las apenas aos aspectos quantitativos do consumo, tomando os atos técnicos “por fora”, enquanto unidades de produção/consumo cuja multiplicação e distribuição adequada garantiria a satisfação plena das “necessidades de saúde”, mas ampliar o sentido da participação até os aspectos qualitativos do consumo, até o conteúdo interno dos atos de produção/consumo, reconhecendo que estes só são capazes de responder às “necessidades de saúde” que se definem à medida mesmo em que são satisfeitas por estes atos. Estes devem, portanto, estar abertos aos movimentos de transcendência gerados pelas necessidades que não são capazes de satisfazer. Estas últimas, correspondem, grosso modo, à noção de “necessidades radicais”, tal como foi conceitualmente desenvolvida por Heller (1986). A ênfase que aqui colocamos nesta dimensão do problema, para ser adequadamente percebida, precisa ser posta em relação com as preocupações centrais que têm animado nosso específico projeto de organização das ações numa UBS, conforme apontado no capítulo 1. Pode-se dizer que constitui o seu modo necessário de abordar o problema da participação, ou ainda, aquele que decorre do seu próprio modo de se colocar como um “ideal”, como um “modelo” de organização das ações...

“Cabe antes até do que como ‘ideal’ defini-lo como dever moral, e neste caso, escapando à contraditória pretensão de definir pelos indivíduos quais são suas necessidades justas, o dever moral se confunde com a busca das conexões entre o processo de trabalho, tal como possa ir-se orientando para o novo modelo, e a gênese das necessidades radicais de saúde.” (Mendes-Gonçalves, 1992)

*

A partir deste ponto, introduzimos um outro olhar sobre as questões de “comunicação” em uma UBS. Segundo esse outro olhar, a “difusão de informações” e as eventuais mudanças de comportamento esperadas são apenas aspectos particulares de uma concepção mais inclusiva de comunicação. Às duas vertentes de práticas de “comunicação em saúde” acima apontadas, com as quais devemos trabalhar criticamente, agregaríamos uma terceira vertente, estreitamente vinculada aos modos de organização das ações efetivamente operados na UBS e que está muito próxima de uma idéia de “comunicação total”, em que se assume que a “situação toda fala”.

Esta perspectiva não traz em si nenhuma linha de intervenção “comunicacional” bem definida e nem faz uso de instrumentos particulares à comunicação, em que os resultados  das práticas comunicacionais possam ser medidos como “efeitos sobre um receptor”. Contudo, permite a visualização de determinados “efeitos” que se produzem à revelia. Determinados “efeitos de sentido”, que se produzem, quer os enxerguemos ou não, e que decidem se os “efeitos” almejados pelas práticas de comunicação stricto sensu terão “sentido” ou se não serão contraditórios em relação à “fala total” da instituição (como se dá, por exemplo, quando uma campanha massiva convoca a população a adotar alguma medida preventiva procurando os serviços de saúde pública e, ao mesmo tempo, estes serviços se encontram sucateados e em baixa oferta). Essa concepção “total” da comunicação a aproxima, da problemática da cultura, da vida cotidiana e da consciência simbólica. São outras, as questões que suscita...

O que será que se passa ao nível do imaginário das pessoas presentes às cenas dos serviços (como trabalhadores ou população-usuária) que, de algum modo, as possibilita estarem inseridas nestas cenas? Como percebem a realidade que experimentam e que, traduzindo em certos entendimentos das práticas dos serviços, permite-lhes definir comportamentos “necessários e adequados”?  


Do Programa ao Diagrama:
por uma semiótica da organização das ações.

Ferdinand de Saussure, considerado o pai da lingüística moderna, chamou de Semiologia à disciplina geral que estuda os signos e considerava a linguagem como um caso particular. Roland Barthes, um importante “semiólogo” mais contemporâneo, inverteu a fórmula saussuriana e entendeu a Semiologia como o estudo dos sistemas de signos segundo as leis da linguagem. Servindo-nos de Eco (1974), chamaremos...

“...de Semiologia uma teoria geral da pesquisa sobre fenômenos de comunicação vistos como elaboração de mensagens com base em códigos convencionados como sistemas de signos; e chamaremos de Semióticas esses sistemas isolados de signos na medida em que o sejam, e portanto formalizados (se já foram individuados como tais) ou formalizáveis (se ainda estão por individuar onde não se supunha que existisse um código).”

O modo de organização das ações numa UBS, ao instituir determinados processos de trabalho (e não outros), institui, através destes, o que poderíamos chamar de “dispositivos organizadores de discursos”. Pode-se dizer, enquanto idéia mais geral, que toda Organização libera “sistemas de signos” que lhe são próprios. O Projeto das Ações Programáticas, enquanto Projeto de Organização particular do trabalho em saúde, também é passível, portanto, de uma aproximação semiótica: também é possível lê-lo como um “sistema isolado de signos”, alguns já individuados, outros ainda por se individuar. Passamos, nesse caso, do domínio do Programa para o domínio do Diagrama, de um plano de organização do trabalho para um plano de referenciamento discursivo.

É importante, antes de mais nada, não confundirmos o Diagrama com uma versão “ideal” do Programa, tal como este possa ter sido concebido na imaginação de técnicos, assim como tampouco corresponde a um “discurso sobre o Programa”. O Diagrama é uma imagem, mas uma imagem viva, “atuante”, que participa da “materialidade” do Programa enquanto um arranjo particular dos elementos significantes: ao mesmo tempo, o prolongamento dos princípios de organização do Programa às dimensões discursivas e imaginárias e o esquema que rege o modo pelo qual o Programa efetivamente opera.

O “traçado” do Diagrama inscreve-se nos jogos discursivos estabelecidos pelos processos cotidianos de trabalho. Neles estão presentes determinadas “direcionalidades” que se oferecem como poderes organizadores do imaginário (de trabalhadores e usuários do serviço). Expressões como “entrar no Programa” (participar de alguma atividade organizada segundo os pressupostos das Ações Programáticas), “disputar vaga no P.A.” (demandar consulta não-agendada / pronto-atendimento), fazer um “A.E. de adola” (atividade programada de atendimento de enfermagem para adolescentes) ou um “grupo de papa” (atividade programada em grupo para a prevenção de câncer ginecológico e discussão de outras questões de saúde da mulher), todas elas participam de um certo mapeamento imaginário do trabalho, que serve de referenciamento comum para os trabalhadores do Setor de adultos do C.S.E. Samuel B. Pessoa (Butantã). São expressões que integram fortemente o discurso dos funcionários do Setor, sem contudo permear a fala dos usuários, que parece se compor de outros estereótipos. Haveria, assim, uma relativa “ruptura semiótica” entre trabalhadores e usuários que não parece, entretanto, inviabilizar totalmente o entendimento comum. Conhecemos mal as bases sobre as quais esse “acordo sobre as necessidades a serem satisfeitas” se faz possível, sobretudo porque conhecemos mal as interpretações da população-usuária a respeito do serviço e seu modo de organização, e é superficial nosso conhecimento sobre a sua utilização efetiva. Os esforços para a superação dessa distância no sentido de um “código comum” não devem ser empreendidos apenas pela via da extensão do Diagrama dos trabalhadores à população usuária, mas também pela aproximação e intercâmbio entre os diferentes “sistemas de signos” e esquemas interpretativos em presença nos encontros cotidianos do trabalho, o que significa sempre, em se tratando de um encontro assistencial, uma negociação sobre as “necessidades a serem satisfeitas”.

Se, por um lado, toda programação das ações é, simultaneamente, uma diagramação imaginária, por outro, temos que a operação efetiva dos Programas se dá conforme o Diagrama que é construído pelos sujeitos presentes àquelas ações e que não precisa ser necessariamente o mesmo para todos. Essa totalidade, que reune gesto e palavra, pode ser vista como uma “malha” tecnológica e discursiva, permanentemente eletrizada pelos consensos e dissensos que a percorrem. Ainda que para um mesmo grupo (por exemplo, os trabalhadores), a Programação possa fundar uma determinada comunidade semiótica, tratar-se-á ainda assim de uma comunidade plural: partilha-se determinados significantes, não obrigatoriamente significados. Estes são, com maior freqüência, variantes e disputados: diferenciais para os indivíduos e subgrupos, e submetidos às tensões da rede de interações sociais. As diferentes “evidências espontâneas das coisas”, ou diferentes “habitus lingüísticos” (Bourdieu, 1983) sempre colocam a possibilidade do acidente, da colisão e do conflito. As “codificações comuns” ou “senhas” favoreceriam um entendimento mínimo e permanentemente provisório entre indivíduos e grupos com “habitus” diferenciados, terminando por constituir uma espécie de “matriz de percepção” ou de “inteligibilidade” das coisas.

Este último aspecto põe em relevo as dimensões políticas implícitas: um processo permanente de criação de consensos provisórios mínimos faz parte da pretensão estratégica de estar construindo e validando politicamente uma hegemonia. Essa construção da hegemonia se daria no nível objetivo dos significantes oferecidos pelas ações, na dimensão concreta das imagens que vêm dar suporte às diferentes experiências: pode-se dizer, pois, que a construção da hegemonia se daria pela instauração de um determinado “regime simbólico” (e não outro). Contudo, não se trata de uma imposição simbólica do exterior, mas de um processo em que determinados valores e sentidos se hegemonizam porque os sujeitos (com “habitus” diferenciados) os reconhecem provisoriamente como seus. Esse processo, na medida que institui como universal o que é necessariamente da ordem do particular, só pode ser visto como dinâmico e contraditório. Esse último aspecto fica mais explícito quando, para além dessa situação dinâmica e contraditória, o campo que pretende a hegemonização fizer com que estes consensos provisórios mínimos apareçam como “comunhão entre saberes”, “horizontalização do diálogo” ou uma falsa unidade. Nesse caso, podemos falar, não em construção da hegemonia, mas em “ideologização” ou “simulação”. É ideologia sempre que as “codificações” vêm reduzir a multiplicidade e a complexidade do campo discursivo de uma determinada realidade e as tensões deste campo, à simplicidade e coerência de seu  sistema de codificação/leitura, cifração/decifração.

 

Tentemos uma síntese destas questões, aproximando-as mais da realidade específica de uma UBS “programada” (o caso da Saúde do Adulto do Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa)...

Temos, em primeiro lugar, que a “matriz de inteligibilidade” fornecida pela Organização do trabalho em programas, que denominaremos Programa, é uma potência de comunicação. Se o Programa enquanto tecnologia tivesse demonstrado pouca efetividade ou capacidade operacional, já teria demonstrado a vantagem de oferecer um Diagrama de referência para as ações de trabalho. Vale dizer, a possibilidade de uma imagem mínima comum do trabalho coletivo que permita um referenciamento global de cada ação particular (atos de produção para os trabalhadores e atos de consumo para os usuários). Em grande parte, essa imagem mínima comum deve ser produzida (pro-ducere: trazer para o campo do visível). Produzi-la é fazer a passagem do Programa ao Diagrama. É quando o Programa passa por uma decantação prática e teórica, livrando-se de uma boa parte do seu excesso significante e preservando determinadas linhas gerais, as quais se tornam possibilidades de referenciamento comum para os encontros técnico-assistenciais cotidianos, possibilidade aberta para o diálogo no campo comum do Diagrama.

Em segundo lugar, se o Diagrama é uma redução comunicacional do Programa, o processo dessa redução não impede sua abertura para diferentes investimentos de sentido. Aliás, esta é a “participação popular” que se espera, para além do modelo estritamente gerencial, e que se dá, de qualquer forma, à nossa revelia: no modo como “distorcem” o modelo, refuncionalizando os meios oferecidos ou ressignificando os conteúdos  das práticas. Assim, se há um Diagrama, ele está entregue à deformação e ao esgarçamento, às metamorfoses e aos movimentos vitais com todos os seus riscos, mas que não é aleatoriedade, não é sem conhecer as necessidades, é ampliação das chances de vôo e de plasticidade para o modelo. E se for por um compromisso ético-político superior, tanto melhor.

O Diagrama não oferece soluções, só a possibilidade de um referenciamento. Esse referenciamento pode se dar em diferentes níveis de definição, do mais grosseiro ao mais fino. Como vimos, a organização por Programas introduziu um novo dialeto na Saúde do Adulto, que demarca com suas expressões próprias uma certa paisagem mental do trabalho realizado pelo coletivo e, potencialmente, já corresponde, nesse plano representacional, a uma Diagramação comum para o trabalho, ainda que num nível muito grosseiro, se a esta imagem houver pouco ou quase nenhum investimento de sentido por parte dos que a partilham. O que desejamos sempre é que tais linhas diagramáticas possam ser investidas de seus sentidos simultaneamente técnicos, éticos e políticos, pois essa sempre foi a maior virtude pretendida por particulares Projetos de Organização, como o Projeto das Ações Programáticas (Schraiber, 1993). Particulares Diagramas (e não outros) apresentam, sem dúvida, maior propensão a receberem investimentos de sentido que transcendam as dimensões estritamente técnico-assistenciais. Em todo caso, para que encontrem as chances de realizar essa potencialidade, somente entregando-o ao risco do diálogo, pois só este é capaz de injetar sentido nos diagramas, conteúdo nas formas, vida nas estruturas ou como diria Buber (1990), injetar tu no isso.

 

BIBLIOGRAFIA

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Bourdieu, P. Sociologia. (coletânea) São Paulo, Ática. 1983.

 

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Buber, M. Eu e tu. São Paulo, Moraes. 1990 (2ª ed.).

 

Dalmaso, A.S.W. e cols. 'Relatório preliminar do projeto Demanda espontânea em unidades básicas de saúde: desenvolvimento de alternativas para recepção da clientela e para captação e resposta a determinadas necessidades de saúde'. Em: CSE SAMUEL B. PESSOA - Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP  Cadernos do Seminário: Estudos Etnográficos em Serviços de Saúde. São Paulo. 1994.

 

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Heller, A. Teoría de las necesidades en Marx. Barcelona, Península. 1986.

 

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Schraiber, L.B. (org.) Programação em saúde hoje. São Paulo, Hucitec. 1993 (2ª ed.).

 

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