para videoparto

Ricardo Rodrigues Teixeira

O projeto  vide.o.parto, uma parceria entre o Departamento de Enfermagem do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo e o Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa (Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) teve início em março de 1998 e tem o seu fim (o lançamento do produto final) previsto para março de 1999.

    Seu objetivo principal é a realização de um vídeo sobre o parto, tal como ele costuma se dar no Hospital Universitário da USP, cuja maternidade pública presta assistência a diversas comunidades do bairro do Butantã, na cidade de São Paulo.

    Trata-se de um trabalho de cunho documental, próximo de uma abordagem etnográfica, mas de caráter bastante particular, uma vez que propõe a algumas gestantes, num dado período de suas gestações, a realização de uma pesquisa comum sobre as imagens do parto.
Como meio básico, utiliza-se a fotografia. O vídeo registra o desenvolvimento da pesquisa fotográfica e mais toda a experiência com as imagens, que deve, em princípio, alimentar a discussão a respeito de quais as “melhores” imagens do parto. É no transcorrer dessa pesquisa que as fotógrafas poderão partilhar conosco, através do vídeo, um pouco de suas vivências da gestação e do parto.

    A realização desta proposta de trabalho tem como pré-condição a existência de um autêntico interesse comum, estabelecido como acordo entre realizadores do vídeo e gestantes/parturientes, de se pesquisar sobre as imagens do parto, tendo como objetivo mais imediatamente colocado para cada gestante a pesquisa sobre as melhores condições de captação das imagens do seu próprio parto. Pretende-se, com isso, encontrar não apenas as “melhores”, mas também as mais legítimas condições de registro em vídeo do nascimento de seres humanos ou, mais precisamente, do momento do parto e das algumas semanas que o antecedem e sucedem.

 

Finalidade

A finalidade primária do vídeo está dada no âmbito de um outro projeto, mais amplo, também promovido pela mencionada parceria HU/CSE, que visa uma maior integração da assistência à gestação, parto e puerpério, prestada pelas duas instituições. Com este fim, pretende-se a elaboração de um conjunto articulado de meios (folder, visitas guiadas à maternidade e vídeo).

          Contudo, entre todos os meios propostos, o vídeo desempenha um papel especial, já que dele se espera a realização de uma singular modalidade de integração do processo assistencial: aquela capaz de se dar através das imagens.

    Para realizadores de vídeo realmente interessados em tratar com seriedade as intervenções que tocam a comunicação e a cultura, esse problema mais geral das imagens como mediadoras da experiência humana assume uma importância central. Mais ainda, quando se trata de estar captando imagens do parto.

 

Questões

Com que imagens "falar de", descrever, mostrar tal acontecimento?

          O objetivo não é o de meramente registrar em vídeo um parto no HU, mas o de problematizar, desde o princípio, os sentidos da produção de tais imagens: para que? para quem? por que? como?

    Trata-se, particularmente, de se interrogar a respeito de “quais” as imagens para representar o parto. Não apenas enfrentar as dificuldades inerentes à realização de um vídeo sobre o parto, qualquer que seja o ponto de vista adotado, mas assumir como questão de primeira grandeza a própria realização de um vídeo do parto, no sentido de se estar produzindo uma visão do parto humano.

    A realização de um vídeo com tais objetivos e compromissos já é, por si só, uma tarefa difícil. Tem-se ainda, como dificuldades adicionais o seu equacionamento no exíguo tempo fixado pelas demandas administrativas que justificam o projeto maior, além dos problemas “de observação” colocados pelo fato dos realizadores diretos do vídeo pertencerem aos quadros das instituições de saúde envolvidas.

    Com intuito de responder a este conjunto de desafios, formulou-se uma estratégia em três tempos.

 

Estratégia

Está fundada num simples princípio: o estabelecimento de um diálogo sistemático com os diversos atores envolvidos com o acontecimento em foco. Consiste, fundamentalmente, na criação de algumas oportunidades de encontros - ou no aproveitamento de oportunidades de encontro já criadas, como as visitas à maternidade, realizadas pelas gestantes durante o pré-natal no CSE -, para a se aprofundar a discussão sobre as imagens e, cada vez mais concentradamente, sobre as imagens do parto. Nestes encontros, a imagem poderia ou não estar presente, a depender de propostas que pudessem emergir dos diferentes grupos em interação ou das negociações e autorizações quanto ao uso de imagens no processo.

    Foi, então, proposta a seguinte série de encontros e/ou intervenções em encontros, que correspondessem a fases sucessivas de uma aproximação gradual do acontecimento, que ganhariam intensidade na medida em que se aproximassem as datas dos partos  a serem gravados:

 

1) Encontros preliminares com os trabalhadores das instituições de assistência: nestes encontros, a proposta geral do projeto foi apresentada ao conjunto dos profissionais das duas instituições que estão mais diretamente envolvidos com a atenção às gestantes e às parturientes, abrindo-se para as críticas e sugestões ao projeto, bem como para as experiências destes profissionais no lidar com este processo sócio-vital e suas práticas de saúde correlatas. Nestes encontros, não só foram discutidas as expectativas das equipes em relação ao produto final do projeto (isto é, o vídeo), mas também foram apontadas as primeiras pistas na busca das imagens.

     ( Esta etapa foi cumprida entre março e maio de 98)

2) Visitas de grupos de gestantes à maternidade, com a realização de fotografias: foi a primeira etapa em que se previu a participação das gestantes e o uso de imagens, no caso, a fotografia. Valendo-se das visitas programadas das gestantes à maternidade do HU, que já fazem parte das atividades regulares do pré-natal no CSE, foram distribuídas máquinas fotográficas de uso simplificado com filme de 24 poses às gestantes participantes de 3 grupos de visita. Um encontro subseqüente com estas gestantes para a discussão das imagens produzidas foi agendado e, àquelas que se dispusessem, foi proposta uma entrevista individual gravada sobre a experiência com as fotos.

  ( Esta etapa foi cumprida em junho e julho de 98, com a participação de 24 gestantes)

3) Proposta de pesquisa fotográfica sobre as imagens do parto feita a um pequeno número de gestantes, que concordassem em ter seus partos gravados e a realizar encontros gravados nas semanas finais da gestação: trata-se, evidentemente, da etapa principal, por incluir a gravação dos partos e dos encontros que se deram nas semanas que o antecederam. Para esta etapa, foi selecionado um pequeno número de gestantes dos 3 grupos com que já havia sido feito contato nas visitas fotográficas à maternidade. Os principais critérios para esta seleção foram: a) data esperada do parto que se adequasse ao cronograma do projeto; b) sensibilidade e perspicácia quanto à proposta de investigação sobre as imagens; c) desejo efetivo de participar do projeto e anuência às condições exigidas (conforme “consentimento informado” por escrito).

  (Etapa cumprida entre agosto e outubro de 98, envolvendo 3 gestantes/parturientes. Cumpre destacar, por seu caráter extremamente auspicioso, que as 3 gestantes selecionadas para esta etapa do projeto manifestaram espontaneamente o desejo de participar, antes de qualquer convite direto por parte dos coordenadores).

 

Resultados

Cumpridas estas 3 etapas, tem-se em mãos o material bruto para a edição final do vídeo e mais alguns subprodutos interessantes deste processo de produção de imagens.

    Primeiramente, passa-se a contar com um amplo acervo de imagens fotográficas produzidas pelas gestantes, tanto no HU, quanto em seus espaços de vida cotidiana, tendo como temática focal o parto.

    Outro subproduto interessante é o website do projeto (http://www.corposem.org/videoparto) que, além de funcionar como uma espécie de relatório da sua execução em “tempo real”, serve também como mais um veículo de divulgação das imagens, informações e outros produtos intelectuais acumulados ao longo da confecção do vídeo. É através do website que o leitor poderá saber mais sobre o projeto e seus produtos, para além do que está contido nesta “nota breve”. Poderá também entrar em contato com a equipe de produção.

    O resultado principal deste projeto – o vídeo – tem sua conclusão prevista para março de 1999, contando-se os últimos meses de trabalho para:

- discussão do material produzido com as gestantes e obtenção do seu aval final para a inclusão na edição definitiva;

- minutagem dos copiões, decupagem técnica e edição propriamente dita;

- digitalizações para eventuais tratamentos gráficos e geração de caracteres;

- produção e inclusão de trilha sonora original.

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